segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

SÚPLICA NORDESTINA








                                         Roberto gostava de cantar e quando Gordurinha lançou seu "long-Play" logo trouxe para seu repertório a Súplica Cearense. Cantava-a em todas festas a que era convidado, sempre dizendo, prestem atenção na letra. No fundo, todos nós temos, também,  culpa de tudo isto.   

Súplica Cearense
Waldeck Artur de Macedo (Gordurinha)
Nelinho
  
Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar
Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há
Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão
Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração
Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar
Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará


sábado, 23 de dezembro de 2017















                                                 Onde estás agora, Diabo Loiro? Teu olhar coriscava o sertão, tua lança chameja nas noites secas, onde se ouve o silvo do bacurau. Vingastes  teu amigo, Lampião? Como é difícil vencer as forças da opressão. Morre-se, outros virão, com outra cor, o mesmo coração.
                                   Cristino Gomes da Silva Cleto é o meu nome, Corisco para o mundo. Não sou, nem nunca fui bandido. Você acredita mesmo na  versão oficial? Eles são donos do poder, podem dizer o que quiserem, todos acreditam, sem nenhuma contestação. Quem é louco de desmentir os donos do poder? 

sábado, 30 de setembro de 2017

                                                   
             








                           


                     Quando você vê um Dominguinhos chorando com saudades de sua terra; Quando pára para ouvir as toadas do Nordeste você, talvez, compreenda o amor de seus filhos por este pedaço de chão seco e esturricado, mas generoso no verde. Até o gado solta cabriola no pasto; O canto do galo é mais garrido, o pio do urutau, menos agourento; A seca não mata o nordestino, mas tente silenciá-lo,  e verão um morto. De tristeza. Banzo agreste deste Nordeste. A terra explica o homem. Cangaço, só o Nordeste tem. Calam o homem, falam carabinas, gritam Virgulinos. América não vai, acoita, apenas. Não foi Roberto Carlos, irá um dia? Choram viúvas, choram mães, choram filhos abandonados na sequidão pelos que buscam no Sul o alento, mas dali não arredam até que venha cair de novo o verde no sertão. E na volta da asa branca, volto eu, meu coração. 

sábado, 24 de junho de 2017

MARIA BONITA

   





















                                           América sonhava. Sim tinha  um sonho. Conhecer Maria Bonita e Lampião. Alguém já lhe dissera que ela era mais bonita que Maria Bonita e seria um perigo se o capitão se apaixonasse por ela. Não estava interessada na pessoa dele, admirava-o por seus atos, mas não o achava charmoso e muito menos bonito. Sabia, por isto, que Maria Bonita não iria sentir ciúmes dela. Seriam muito amigas. Não queria, porém, integrar o bando. Não se via uma cangaceira. Gostava de vida arriscada, mas gostava também de conforto, de vida social. Frequentava todas as festas de Mairi e da vizinhança. Várzea da Roça, Várzea do Poço, Orobó, Capela e Pintadas e todas outras. Foi mesmo numa missa que conheceu seu marido. Sonhara com ele antes de conhece-lo. Diz o povo que se alguém pegar um objeto qualquer, antes de uma estrela cadente sumir e colocá-lo debaixo do trabesseiro, sonhará com o homem com quem vai-se casar. Pois, com América assim foi. Pegou uma pedra enquanto uma estrela caía, pô-la debaixo de seu travesseiro e sonhou com um homem desconhecido. Este terminou por ser marido. Foi em uma missa em Aroeira. A igrejinha estava cheia, pois haveria naquela missa, batismos e casamentos. Uma cavalhada estava chegando do Canto. O povo do Canto era famoso em cavalhada e casamentos suntuosos. Inúmeros cavaleiros e cavaleiras montam garbosos cavalos, ricamente arreados para acompanhar os noivos.  Quantos mais cavalos mais importante era o casamento. Quando se ouviu o tropel dos cavalos quem estava na igreja saiu, das janelas e portas surgiam pessoas de todas as idades. No meio de tantos cavaleiros, America viu, montado em lindo alazão, um homem moreno, de bigode bem aparado, porte majestoso que o distinguia dos demais cavaleiros. Trocaram um olhar. America deixou cair uma flor de seu cabelo. O cavaleiro aproximou-se e sem apear colheu a flor e a entregou a América. Nem uma palavra entre os dois. Nem mesmo um agradecimento da parte dela. Seu rosto corou e todos olharam para ela. Soube depois se tratar do maior amansador de animais da região. Não só isto. Sabia cantar como ninguém. Bom de viola, de pandeiro, de cuia e prato.                              

quinta-feira, 18 de maio de 2017

CANTAR SEM TEMER























                                 Euclides da Cunha sem ser nordestino contou o sertão baiano como quase nenhum outro contou. Mas se Euclides conta o nordeste de maneira cientificista foi preciso nascer na Bahia um trovador capaz de cantar em versos, à maneira quase medieval, a saga baiana, já no final do século vinte e  limiar do século vinte e hum. Falo do malungo Elomar, cantador de trovas e martelos, já correu o mundo inteiro, inté cantou na portas de um castelo de um rei chamado João. O rei queria que ali ficasse, ele disse, não. Prele, cantador e violeiro só três coisas contavam neste mundo vão. Viola, forria, amor. Dinheiro, não. "Mana, vem ver., os sapinhos tão cantando, tiranas do bem-querer";

                                   Ora, Yê Yê, Oxum, linda Uyara,  de verde e negros pêlos, Vós, Rainhas das Águas de meu sertão, dai-me uma fúria grande e sonorosa, para cantar sem temer as coisas de meu sertão; Dai-me igual canto aos feitos da famosa gente sertaneja.

                                       
                                    

sábado, 25 de junho de 2016

SAMBA DE REIS E CHULAS










                                          Roberto Carlos, carinhosamente chamado de Betinho, apelido de infância, era chegado a um samba de reis. Corria três freguesias com seu paneiro afinado para cantar sambas, chulas, batuques e martelos. Fazia dupla com qualquer cantador, na primeira ou na segunda, era ao mesmo tempo baixo, barítono e tenor, embora não tivesse muita consciência destas qualidades vocais e muito menos de suas diversas classificações e técnicas. Tocava da cuia à viola e era bom no repique das palmas. Eu vou, eu vou, que mandaram me chamar. Me dê uma lima da limeira de teu pai.
                              Sambas existiam o ano inteiro, mas de dezembro a janeiro é que choviam convites paras festas reis, comemorado no dia 6 de janeiro, mas que a população estendia por dois meses, celebrando o que chamavam Deus Menino.
                               Um dia chegaram cantando lá em casa, de supetão, sem ninguém esperar. "Oh de casa, Oh de fora, `se menino vai ver quem, são os sambadô de Reis, e quem mandou foi São José"





sexta-feira, 24 de junho de 2016

UM CABA DESTEMIDO













                                    Roberto Carlos não tinha medo de morrer. Quem diria que um dia morreria numa cama fétida do Hospital Irmã Dulce! Até enfrentara Lampião. Dizem, certa feita Lampião o convidara para entrar no cangaço e ele se negou. O capitão se zangou,não era homem de aceitar desfeita, mas lhe disse que o dispensava se ele pulasse a porteira de um salto. Só se o senhor me der distância, capitão. Tome a distância que quiser, se não pular, morre.
             Roberto, caba destemido, deu vinte  passos para trás, tirou o chapéu, consertou as calças e partiu em abalada, a menos de um metro fez o salto, suplantando a porteira sem a menor dificuldade. O capitão ficou boquiaberto, mas não teve nem tempo de admirar o feito. Roberto, de costas, deu salto mortal e pulou a porteira de volta.
          Contam os matutos que Lampião tinha medo de pessoas mais valentes ou mais destras do que ele. Não se tem certeza disto, mas o fato é que Roberto Carlos, fora dispensado de servir ao cangaço, prova de que o capitão mantinha a palavra dada. Tempos, aqueles tempos, quando o dito valia mais que mil documentos. Hoje, nem uma sentença é definitiva, porque os juízes mudam mais de opinião que camaleão mudam de cor, sem contar nos que vendem, descaradamente, suas sentenças para obedecer a interesse financeiros e políticos,que dá no mesmo, posto que a política que deveria ser a arte de governar as pessoas, passou a ser uma profissão rentável, tão rentável quanto o futebol e a música popular. Vejam como jogadores, palhaços e cantores viram políticos. Tempos heroicos no qual se lavava a honra com o próprio sangue.
             Roberto Carlos, seu nome é uma homenagem. A seu bisavô que se chamava Ruperto, mas que o populacho chamava de todo jeito: Ruperte, Ruberte, Roberte, Roberto. Na briga, na hora de registrar, ficou Roberto. Duas regras existiam para se nomear um filho. Primo, colocar o nome de um parente, seguindo a maneira portuguêsa; Doi, o nome do santo do dia do nascimento. Nascera em 4 de novembro, dia de São Carlos Borromeu, um nobre milanês, feio como um cão danado, sobrinho do Papa Pio IV, por isso, feito cardeal aos 23 anos, mesmo antes de ser padre, uma das imoralidades da Igreja. Também houve briga na família pela homenagem ao santo, e,  para satisfazer a todos registraram-no Roberto Carlos, homenageando-se, assim,  o bisavô e o santo,fez-se a paz na família. Não, porém, o único, na família teve muitos, talvez, desta vez, mais em homenagem a ele, do que ao patriarca e ao santo, que diziam em tom de troça o santo borrado.
             Cresceu ao cantos de galos na madrugada, o piar das corujas, chacoalhar do gado no curral,fazendo parede e meia com o oitão da casa e o canto dos pássaros do amanhecer ao anoitecer. À noite ouvia o som do pandeiro do pai acompanhando o repicado da viola do tio, cantando chulas, ensaiando batuques. Um dizia um mote o outro respondia, e depois os dois cantavam em dueto. Ouvindo-os, relembrava o som das palmas em uníssono e em contratempo, a cuia estridente e o prato arranhado, à reco-reco da ultima festas de reis. Eu conheço a cor da água, nunca vi a cor do vento... Sem as mãos não bate palmas, eu nunca vi rastro de almas, nem couro de lobisomem... Uma infância como qualquer outra do sertão, curtindo o frio do inverno, a seca do verão,comendo requeijão quente feito pela mamãe, rapando o tacho do pão de ló. Boa a massa do ovo na manteiga e mel.